A Arte de Escrever Bem

A arte de escrever bem

(Parte 1)

A arte de escrever bem: não, esta não é mais uma resenha do aclamado livro de Dad Squarisi e Arlete Salvador. Também não é uma crítica ao clássico de Schopenhauer ou a divulgação de estratégias de escrita criativa. É apenas uma reflexão, porque – confesso – estou fartinha de ver a nossa língua a ser maltratada

A escrita reflete o pensamento

Nunca foi tão fácil escrever o que se pensa sobre um determinado assunto, partilhar estados de alma ou dar palpites sobre tudo e mais alguma coisa. As redes sociais estão cheias dessas intervenções e refletem bem (ou deveria dizer “mal”?) os maus-tratos a que a nossa língua tem sido sujeita.

Outro exemplo é a linguagem utilizada pelos mais jovens (mas não só) nas SMS. A dependência dos smartphones e, sobretudo, do que estes nos possibilitam fazer em alguns (pouco) cliques levam à estropiação da língua…

Fico perplexa com a falta de pontuação, com os erros ortográficos (a sensação que me dá é que se escreve como se fala) e de sintaxe, a pobreza de vocabulário, a amputação das palavras e, sobretudo, com a falta de coerência. Por vezes, dou por mim a ler duas ou três vezes, para ver se entendo ou adivinho, outras… desisto.

Esta minha perplexidade – que avança com a idade – tem-me levado a tentar entender o que está na origem deste destrato. E há dias, em conversa com uma formanda, chegámos a uma teoria: a escrita reflete o pensamento…

O Pensamento Crítico

Entusiasmadíssima com essa “descoberta”, pus-me a investigar e fui dar ao conceito de “pensamento crítico”. Resumo aqui o que se entende por pensamento crítico:

  • Primariamente, é uma noção que advém da filosofia e da pedagogia;
  • Designa uma atitude crítica relativamente a toda e qualquer afirmação ou informação, bem como a capacidade intelectual de tirar conclusões refletidas e baseadas em argumentos;
  • Proporciona autonomia intelectual e gera a aptidão de tomar decisões não enviesadas;
  • É uma atividade racional baseada no questionamento de preconceitos e de opiniões feitas;
  • Requer o exercício da razão, logo o uso da linguagem, da argumentação e da concetualização;
  • É uma excelente ferramenta para desmontar teorias simplistas e conspiracionistas que muito seduzem por aí…

Se chegou até aqui na sua leitura, provavelmente já percebeu onde quero chegar: sim, há relação entre pensamento crítico e escrita, ou, para ir direta ao assunto, há relação entre a falta de pensamento crítico e a “má escrita”.

Revisão de bibliografia

Já em 1970 (eu ainda nem era nascida e já havia quem refletisse sobre esta questão…), no seu livro Less than words can say, o inglês Richard Mitchell afirmava que um sistema educativo que não ensine os seus alunos a escrever de forma clara e coerente não produzirá adultos dotados de… espírito crítico, pois então!

O Professor Gerald Graff da Universidade de Chicago vai um pouco mais longe, afirmando que a qualidade da nossa escrita é um reflexo da nossa forma de pensar, e que aqueles que escrevem mal têm um espírito cívico pouco desenvolvido e são lentos a perceber as armadilhas da propaganda (Ui! Já estou a imaginar os comentários que isto suscitaria num grupo do Facebook…).

A Professora de Linguística da Universidade de Laval (Quebeque), Claudia Borgonovo, é da opinião que as escolas deveriam insistir menos na ortografia (afinal, para que servem os revisores ortográficos?!) e focar-se mais na redação e na organização do pensamento.

Bom, não batamos mais no ceguinho, ou seja, no dito sistema educativo e concentremo-nos nas soluções.

A Leitura Ativa

A leitura ativa implica, de acordo com um bom leque de especialistas que se dedicam a esta disciplina, a diversificação das leituras feitas e a comparação ou análise contrastiva do que lemos com as nossas vivências. Desta forma, o cérebro retém mais informações, dado que as mesmas se encontram agora associadas às que já se encontram armazenadas na nossa memória.

Em jeito de paralelismo, o Neurolanguage Coaching® – de que tenho o privilégio de ser uma das percursoras em Portugal – preconiza que a língua estrangeira deve ser ensinada estabelecendo conexões pertinentes à língua materna (esta é uma forma de “tranquilizar” o nosso receoso cérebro).

A comparação dos saberes (do saber novo com aquele que já se possui) leva à necessidade da revisão escrita e, portanto, ao refinamento do pensamento e da expressão. Convém que essa leitura ativa seja, progressivamente, mais complexa e variada.

Conclusões

Esta é uma primeira abordagem à questão da “Arte de escrever bem” e a apresentação de uma possível explicação (a falta de pensamento crítico) e de uma possível solução/estratégia (a leitura ativa).

Ainda agora comecei e já me dou conta que há múltiplas explicações, soluções e estratégias. Tenho aqui pano para mangas sobre a Arte de escrever bem!

Como sempre, os vossos comentários e sugestões são bem-vindos.

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