A Arte de Bem Escrever (Segunda Parte de Uma Reflexão)

A Arte de Bem Escrever

No primeiro artigo dedicado a este tema (A Arte de Bem Escrever), avancei uma “teoria”: a escrita reflete o pensamento de quem escreve e está intimamente ligada ao pensamento crítico. E como nunca levanto um problema sem, pelo menos, tentar apresentar uma solução, apresentei a leitura ativa como uma possível estratégia.

Problema

Como já o disse também no artigo anterior, a impressão que passa – sobretudo nas redes sociais – é que as pessoas escrevem como falam. Ora, sabemo-lo desde a escola primária, a produção oral e a produção escrita obedecem a dois códigos bem diferentes. Aliás, esta constatação não é um exclusivo da língua portuguesa. A conversão do discurso oral em discurso escrito e as sucessivas evoluções linguísticas assim o ditaram.

Possível explicação

Se, como já vimos, a escrita decorre do pensamento, é importante que este – o pensamento – esteja devidamente alimentado. E não me refiro a nutrientes e proteínas, mas à matéria-prima da escrita: palavras. Palavras de qualidade, pois a qualidade do “output” será proporcional à qualidade do “input”. Se as minhas leituras se limitam a publicações nas redes sociais (onde o terreno já se afigura bastante “minado”), não posso esperar grandes resultados…

Pode soar a lugar comum ou a ralhete de professora de escola primária, mas é a explicação mais plausível para este défice de qualidade na escrita: a falta de leitura

Obviamente, excluo desta equação toda e qualquer perturbação do espetro cognitivo.

Possível solução

No primeiro artigo, já avancei a solução da leitura ativa que consiste, resumidamente, em diversificar as leituras e, para cada uma delas, estabelecer conexões com as nossas vivências, com o que já sabemos.

Avanço hoje uma segunda hipótese muito cara às neurociências: a escrita manual.

Pode parecer simplista, mas, numa era dominada por teclados e telefones inteligentes, acreditem, escrever à mão pode tornar-se um autêntico desafio! (já ouviram, certamente, comentários deste género: “De tanto usar o computador, já não sei escrever à mão…”)

De acordo com diversos neurocientistas, a escrita à mão ativa regiões do cérebro responsáveis pelo pensamento (cá está ele outra vez!), a linguagem e a memória.

As vantagens são inúmeras:

  1. Formar letras à mão, enquanto se aprendem os seus sons, ativa circuitos de leitura no cérebro, promovendo a alfabetização.
  2. Dominar a escrita à mão ativa a perceção visual das letras, contribuindo para uma leitura mais fluida e uma melhor compreensão dos textos.
  3. A escrita à mão aumenta a atividade neuronal em determinadas secções do cérebro, estimulando-o e mantendo a sua massa cinzenta em forma, o que ajuda na hora de aprender e memorizar.
  4. Cada vez mais estudos afirmam que um componente motor pode estar mais envolvido na aquisição ortográfica.
  5. Esses estudos também revelam que a fluidez na escrita está intimamente relacionada com a qualidade e a complexidade dos textos que lemos. A escrita cursiva (ou itálica), por exemplo, pode ativar regiões do cérebro vinculadas com a fluidez da linguagem.
  6. A escrita à mão reduz as distrações, aumentando o foco e fomentando a criatividade.

Conclusões

Leituras diversificadas e dinâmicas e a prática da escrita manual são as duas estratégias que vou partilhando com todos os meus formandos e que queria partilhar com todos os seguidores deste blogue.

Contudo, não esqueçamos que, para que haja um verdadeiro processo de melhoria, dois ingredientes são indispensáveis: a consciência de que não escrevemos tão bem quanto seria suposto e uma genuína vontade de escrever melhor.

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