Interpretação Simultânea Remota

Interpretação Simultânea Remota

– A Visão de uma Intérprete –

Interpretação Simultânea Remota: a minha versão, a minha história. Lembro-me como se fosse ontem… Era uma das últimas aulas da pós-graduação (CESE) em Interpretação Simultânea.

Um pouco de história…

O Coordenador do Curso perguntou: “Já prepararam as vossas mãezinhas?! É que, a partir de agora, vai ser só viajar!”

Éramos a 2.ª fornada a sair para o mercado de trabalho, com certificado.

De facto, foi assim durante longos anos. Se queríamos marcar presença nos cenários de interpretação e somar horas de prática, tínhamos que nos deslocar. Ou íamos trabalhar para as organizações internacionais, para as instituições da União Europeia, por exemplo, ou ficávamo-nos pelo “mercado nacional” e tínhamos de andar de norte a sul, para onde nos chamassem.

Um passado recente de emigração e o meu confessável perfil provinciano fez-me optar pela segunda opção. Sou intérprete no mercado nacional há quase 27 anos e não me arrependo.

E, sim, é verdade, muitas viagens, muitos quilómetros, muitas malas por desfazer, mas uma bagagem cheia, cheia de aprendizagens e experiências boas!

E depois… veio a pandemia…

E depois veio a pandemia

Primeiro a incerteza: o que vai ser desta profissão? O setor da organização de eventos estava à beira do colapso…

Depois, chegaram as primeiras plataformas de interpretação à distância, os primeiros testes, as primeiras experiências.

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se.”

Para aqueles que também são tradutores, já havia a experiência – embora diferente – da integração das CAT Tools (ferramentas de apoio à tradução) nos métodos de trabalho. Agora isto…

Do meu lado, também já tinha a experiência da interpretação telefónica. Nunca morri de amores… Gosto de olhar para os meus interlocutores, interpretar não só as palavras, como também toda a comunicação não verbal que as acompanha.

Mas também não baixei os braços: fiz as formações que algumas plataformas oferecem, li muita coisa, testei e… cá estou eu, sobreviva!

Uma boa plataforma é…

Entretanto, começaram a chegar as primeiras oportunidades de trabalho em plataforma. O nervoso miudinho. As boas surpresas. Abati muito cedo o bicho das 7 cabeças.

Alguns meses mais tarde, já experimentei algumas plataformas e já cheguei a algumas conclusões.

Sobre recomendações e boas práticas, a nossa associação internacional já tudo disse e, tecnicamente, existe uma norma de qualidade – a ISO/PAS 24019:2020 – sobre as plataformas de interpretação simultânea.

Prefiro dar-vos a minha visão. A perspetiva da intérprete que já usou algumas plataformas e já forjou uma opinião genérica sobre as mesmas.

Para começar, prefiro as plataformas dedicadas, isto é, as que foram pensadas de raiz para intérpretes. As plataformas genéricas às quais se integrou um módulo de interpretação posterior não são más, mas carecem de comunicabilidade e intuitividade, do ponto de vista do intérprete.

Dou preferência a plataformas que reproduzam virtualmente a consola da cabina a que todos estamos habituados. Designadamente, a questão do relé. Isto de termos de nos conectar à sessão, como participantes e através de outro dispositivo, não dá jeito nenhum…

Também prefiro as plataformas que disponibilizem assistência técnica permanente. Se é o caso no presencial, por que não aplicar a regra também no online? Afinal, a componente tecnológica é igualmente pesada…

Futurologia…

Sempre do ponto de vista do intérprete, inclino-me muito para uma solução “híbrida”, isto é, uma solução em que os intérpretes partilhem o mesmo espaço físico (co-localização) e possam entreajudar-se de uma forma efetiva, como sempre aconteceu no presencial. É essa a componente que falta à interpretação simultânea remota.

Acredito que, a médio-prazo, surgirão hubs de cabinas físicas espalhados um pouco por todo o lado (já existem alguns), de modo a que intérpretes de uma mesma cabina (par de línguas) possam, de facto, trabalhar no mesmo espaço, independentemente do evento ter lugar online, em Nova Iorque ou em Singapura.

Esses hubs também asseguram a assistência técnica permanente, ou seja, é menos uma preocupação para o intérprete.

Conclusão

Há ainda alguma incerteza sobre o futuro da interpretação, se voltará a ser totalmente presencial (não creio) ou passará a ser 100% online (também não creio).

O precedente está aberto, faltam limar algumas arestas, é certo, mas parece-me que voltarei a ter de fazer algumas viagens.

Até lá, vamos limando as tais arestas!

Na ABC, por exemplo, já temos uma cabina devidamente montada e é nosso objetivo fazer crescer este projeto. Aceitamos visitas e sugestões de melhoria.

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