Testámos o Evaristo.ai: consegue transformar burocratês em linguagem clara?

Ecrã de entrada da plataforma portuguesa Evaristo.ai.

A inteligência artificial já traduz, resume, revê e produz textos.
Mas será também capaz de transformar uma instrução administrativa
confusa numa mensagem que o cidadão compreenda à primeira leitura e
consiga utilizar?

Foi essa a pergunta que nos levou a testar o Evaristo.ai –
Linguagem Clara
, uma aplicação portuguesa recentemente lançada
e desenvolvida especificamente para reformular textos em português. Para
o teste, recuperámos um pequeno excerto do portal do Registo Central do
Beneficiário Efetivo que já tínhamos analisado noutras ferramentas.

O resultado mostra bem o potencial destas tecnologias, mas também
confirma uma ideia essencial: em linguagem clara, simplificar a forma
não chega. É indispensável preservar o sentido e tornar inequívoca a
ação que se espera do leitor.

O que é o Evaristo.ai –
Linguagem Clara?

O Evaristo.ai – Linguagem Clara é uma ferramenta
gratuita de inteligência artificial apresentada em 4 de maio de 2026, na
véspera do Dia Mundial da Língua Portuguesa. Integra a família
Evaristo.ai, uma plataforma de IA aberta para a língua portuguesa
disponibilizada pela PORTULAN CLARIN, infraestrutura de
investigação coordenada pela Faculdade de Ciências da Universidade de
Lisboa.

Segundo a Universidade
de Lisboa
, a aplicação foi concebida para tornar os textos em
português mais compreensíveis e diretos. O projeto conta também com a
colaboração da Academia das Ciências de Lisboa e utiliza conteúdos
linguísticos e terminológicos do ACL+, como explica a própria Academia
das Ciências
.

A ferramenta apresenta-se como especialista em reformular textos de
acordo com a norma ISO 24495-1. Além de propor uma nova versão,
identifica as alterações efetuadas e apresenta um resumo em linguagem
clara.

Linguagem
clara é mais do que escrever frases curtas

A linguagem clara procura garantir que os leitores:

  • encontram a informação de que precisam;
  • compreendem essa informação;
  • conseguem utilizá-la para atingir o seu objetivo.

Por isso, um texto não se torna necessariamente claro apenas porque
contém frases mais curtas ou palavras mais comuns. Pode ser
perfeitamente legível e, ainda assim, deixar o leitor sem saber o que
deve fazer.

Esta distinção é especialmente importante em textos jurídicos,
administrativos, financeiros ou de saúde. Nesses contextos, uma pequena
alteração de sentido pode ter consequências práticas.

O texto que escolhemos para
o teste

Selecionámos esta instrução, recolhida no portal do Beneficiário
Efetivo:

“Destina-se à identificação dos dados ou informação de fontes
independentes e credíveis que intentam a comprovação dos elementos
identificados dos beneficiários efetivos. Sempre que não seja
identificada a existência de informação comprovante em base de dados da
administração pública, deve(m) ser anexado(s) documento(s) para esse
efeito.”

O texto tem apenas duas frases, mas levanta várias dificuldades:

  • não identifica claramente o sujeito de «destina-se»;
  • acumula nomes abstratos, como «identificação», «informação» e
    «comprovação»;
  • utiliza a construção pouco natural «fontes […] que intentam a
    comprovação»;
  • repete palavras da mesma família;
  • recorre à fórmula pesada «deve(m) ser anexado(s) documento(s)»;
  • não diz de forma direta o que o utilizador deve introduzir ou
    anexar.

O que revelaram outras
ferramentas?

Este mesmo excerto já tinha sido submetido a diferentes
plataformas.

O editor de linguagem clara da Inboarding classificou-o como
“muito difícil”, com uma pontuação de apenas 7
em 100
, e assinalou várias palavras longas. O diagnóstico
confirmou a complexidade do texto, mas não produziu uma reformulação
completa.

Análise de legibilidade do texto do Beneficiário Efetivo na Inboarding, classificado como muito difícil com 7 pontos em 100.
Análise do texto do Beneficiário Efetivo no
editor da Inboarding, com uma pontuação de legibilidade de 7 em
100.

O calculador Flesch–Kincaid também o considerou muito difícil. Este
resultado deve, contudo, ser interpretado com prudência: a fórmula foi
concebida para a língua inglesa e a sua aplicação direta ao português
não permite tirar conclusões rigorosas sobre o grau de escolaridade
necessário para compreender o texto.

O QuillBot encurtou a formulação, mas estava configurado para
português do Brasil e introduziu escolhas menos adequadas ao contexto da
Administração Pública portuguesa. O Linguix, por sua vez, simplificou
apenas parte do excerto.

Num teste com o ChatGPT, fornecemos instruções detalhadas sobre os
quatro princípios da linguagem clara e o contexto de utilização. A
resposta organizou a informação em duas secções — «Objetivo desta etapa»

e «O que deve fazer» —, tornando a ação mais visível.

Reformulação do texto do Beneficiário Efetivo em linguagem clara, organizada em objetivo e instruções para o utilizador.
Reformulação do texto administrativo pelo
ChatGPT, organizada nas secções Objetivo desta etapa e O que deve
fazer.

Estes testes não constituem uma comparação laboratorial entre
produtos equivalentes. Algumas ferramentas medem a legibilidade; outras
parafraseiam ou geram texto. Permitem, no entanto, observar como
diferentes tecnologias abordam o mesmo problema de comunicação.

O resultado apresentado
pelo Evaristo.ai

No Evaristo.ai, introduzimos apenas o texto original, sem acrescentar
instruções ou contexto. A aplicação propôs a seguinte reformulação:

“Para verificar os elementos dos beneficiários efetivos, é necessário
encontrar informações fidedignas provenientes de fontes independentes.
Caso não se encontrem provas dessas informações nas bases de dados
públicas, deve-se juntar documentação que as comprove.”

A plataforma explicou ainda que simplificou a estrutura da frase,
substituiu «intentam» por «provenientes» e trocou «informação
comprovante em base de dados da administração pública» por «nas bases de
dados públicas». Por fim, apresentou um resumo do conteúdo.

Resultado do Evaristo.ai com a reformulação, a explicação das alterações e o resumo do texto do Beneficiário Efetivo.
Resultado do teste do Evaristo.ai com a
reformulação do texto do Beneficiário Efetivo, lista de alterações e
resumo.

O que melhorou?

A proposta do Evaristo apresenta melhorias evidentes:

  • divide o conteúdo em duas frases mais fáceis de acompanhar;
  • elimina a construção «deve(m) ser anexado(s) documento(s)»;
  • substitui «informação comprovante» por uma expressão mais
    natural;
  • torna mais visível a relação entre a condição e a ação
    necessária;
  • explica as alterações efetuadas, permitindo ao utilizador acompanhar
    o processo de reformulação.

Esta última funcionalidade é particularmente útil. A ferramenta não
se limita a entregar uma nova versão: procura justificar as suas
escolhas e contribuir para uma utilização mais consciente da linguagem
clara.

Mais legível, mas será
mais utilizável?

Apesar das melhorias, a reformulação levanta algumas questões de
precisão.

O texto original parece pedir ao utilizador que identifique
as fontes independentes e credíveis utilizadas para comprovar os dados
dos beneficiários efetivos
. O Evaristo transforma essa
instrução na necessidade de «encontrar informações fidedignas».

Porém, identificar uma fonte e encontrar
informação
não são exatamente a mesma ação. A nova versão é
mais fluida, mas pode afastar-se da finalidade concreta do campo do
formulário.

Também permanecem algumas ambiguidades:

  • «elementos dos beneficiários efetivos» continua sem explicar quais
    são esses elementos;
  • «provas dessas informações» não esclarece exatamente o que deve ser
    comprovado;
  • em «documentação que as comprove», o pronome «as» pode dificultar a
    identificação do referente;
  • «bases de dados públicas» pode ter um âmbito diferente de «base de
    dados da Administração Pública».

A própria explicação da ferramenta merece atenção. O Evaristo afirma
ter substituído «intentam» por «provenientes», mas estas palavras não
são equivalentes: a primeira procura exprimir uma finalidade; a segunda
indica uma origem.

No resumo, surge ainda outra alteração:

“Se esses dados não estiverem disponíveis nas bases de dados
oficiais…”

O original não afirma necessariamente que os dados não estão
disponíveis. Indica que pode não existir, numa base de dados da
Administração Pública, informação que os comprove. Os dados podem estar
declarados e, ainda assim, faltar a respetiva comprovação.

Como reformularíamos este
texto?

Sem conhecer a função exata do campo no formulário, nenhuma
reformulação deve ser tratada como definitiva. Partindo, contudo, da
interpretação mais provável do original, propomos:

Como comprovar os dados dos beneficiários
efetivos

Indique as fontes independentes e credíveis que permitem confirmar os
dados dos beneficiários efetivos.
Se esses dados não puderem ser confirmados através das bases de dados da
Administração Pública, anexe os documentos que os comprovem.

Esta versão procura preservar as duas ações aparentemente exigidas ao
utilizador: indicar as fontes e, quando necessário,
anexar documentos comprovativos.

O título antecipa a finalidade da instrução; os verbos «indique» e
«anexe» dirigem-se diretamente ao leitor; e a sequência das ações
acompanha o percurso que este terá de realizar.

Que conclusão podemos
retirar do teste?

O Evaristo.ai é uma iniciativa relevante para a língua portuguesa e
uma ferramenta promissora para divulgar os princípios da linguagem
clara. Neste teste, conseguiu tornar um excerto burocrático mais fluido
e apresentou uma funcionalidade valiosa: a explicação das reformulações
efetuadas.

Ao mesmo tempo, o exemplo mostra que legibilidade, clareza e
precisão não são sinónimos
. Uma frase pode ficar mais simples
e, ainda assim, alterar subtilmente a instrução, conservar ambiguidades
ou não permitir ao leitor agir com segurança.

As ferramentas de inteligência artificial podem ser excelentes
auxiliares. Podem identificar dificuldades, propor alternativas e
acelerar uma primeira reformulação. Mas, sobretudo em comunicação
jurídica e administrativa, os resultados devem ser validados por um
profissional que conheça o contexto, o público e a finalidade do
documento.

A linguagem clara não consiste em empobrecer o conteúdo. Consiste em
comunicar a informação necessária, com rigor, para que as pessoas a
encontrem, compreendam e utilizem.

Na ABC Traduções, aliamos experiência linguística,
conhecimento especializado e tecnologia para ajudar organizações a
comunicar com maior clareza em português ou noutras línguas.

Precisa de rever, simplificar ou adaptar os textos da sua
organização?

Fale connosco: geral@abctraducoes.pt
| +351 232 431 143 | 937 556 179 | www.abctraducoes.pt

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